sábado, 14 de novembro de 2009

Cachoeira: falta de informação ou interesse?

Uma das sedes da UFRB, Cachoeira sofre com a falta de
investimento na área de informação.

Estou de pé cedo, pronta para uma entrevista com um senhor que me daria informações sobre jornal, meios de comunicação, o que lê ou não lê em jornais, uma pessoa instruída e informada para cumprir mais uma missão de estudante de jornalismo. Entrevista marcada, entrevistado não está, oito, nove, dez, onze horas da manhã e nada, ninguém em casa. Desespero. Naquele momento acredito que a única pessoa que pode me dizer qualquer coisa sobre informação em Cachoeira é ele. Como toda jornalista – ou futura, tanto faz – inicio uma caminhada pela cidade, espero por um sinal divino ou quem sabe alguém que me diga “eu leio jornal, sou uma pessoa informada e gosto disso”, alguém que me dê uma opinião, alguém interessante. De repente um lugar comum aos meus olhos, porém não aos meus pés, lá eu nunca entrei, e confesso não sei por que motivo, razão ou circunstância nunca nem pensei em entrar. MC Livros e Cia., nome comum, pessoa incomum, Raimundo Dayube, um aposentado, ex-gerente de banco, dono de papelaria, livraria e banca de revistas, um verdadeiro três em um, me recebe com muita gentileza e topa um papo sobre livros e jornais, tema que ele conhece. Ao falar em meio de informação, pensa-se logo em TV, radio e jornal impresso. Em Cachoeira as coisas são diferentes, lá existe uma estação de rádio e dois jornais periódicos de períodos não definidos. Ou seja, para saber de uma notícia relacionada a ela, o assunto tem que ser pauta de um telejornal estadual, probabilidade pequena, mas que às vezes é vista. Os jornais vêm de Salvador todos os dias de ônibus. Quem mais poderia me oferecer informações sobre esse tema? Alguém que trabalha com isso, que vende revistas e livros, alguém que vende informação das mais variadas formas. E é com ele que vou passar um tempo da minha manhã conversando.




R.P. O senhor vende jornal aqui?

Não, jornal é lá na Casa da Cultura.

R.P. Faz parte da sua leitura os jornais da cidade, O Recôncavo e O Guarani?

O Recôncavo e O guarani são periódicos e não tem regularidade, não chega a ser nem mensal, mas sempre que sai, eu leio.

R.P. Então a gente pode dizer que é uma deficiência aqui em Cachoeira não ter um jornal diário?

Nem diário, nem mensal, os que têm são periódicos. Mas é sim.

R.P. Qual a o período deles?

Me parece que depende de patrocínio, quando eles tem condições de editar eles editam. São os anunciantes, não é?

R.P. E o senhor acha que ele é acessível à população?

É porque é grátis.

R.P. Mas acha que aqui existe interesse de parar pra ler porque é um jornal da cidade?

Eu não sei nem lhe dizer se há um interesse por ser um jornal da cidade, o pessoal pega porque é grátis. Já teve aqui outros jornais que tinha uma regularidade. Por exemplo, o jornal A cachoeira, ele era regular e saía mensalmente, o pessoal tinha mais interesse porque tinha certeza que ele sairia e que tinham assuntos que interessariam. Outro aspecto é quando o jornal tem matérias que chama atenção, e esses jornais dirigidos, é pra falar bem de quem patrocina aí é complicado. Normalmente o que patrocina o cara fala bem, né? Políticos, o prefeito banca uma edição só pra falar bem do aspecto positivo do administrador.

R.P. Quando pega um jornal, o que mais te interessa nele, qual dos cadernos, economia, cultura?

Ah, eu gosto mais de economia, é minha área, eu fui gerente de banco, hoje estou aposentado, fui gerente do Banco do Brasil e hoje estou aqui pra poder tomar meu tempo. Esse espaço é meu, e não tinha lugar [na cidade] pra vender livros e revistas. Toma meu tempo e eu gosto de ler, eu passo o dia quase todo lendo.

R.P. E como o senhor faz a escolha desses livros?

Os romances são os mais lidos da atualidade, sai na revista Veja, na revista Istoé, aquela relação, os que estão aqui são os mais lidos no Brasil. E os da faculdade eu trago por encomenda. Já têm alguns que já são manjados, porque todo semestre o professor pede. Eu pego uma relação. Mas vocês compram pouco livro, dizem que é a questão do valor e fica xerocando. Normalmente eu vendo dois, três, quatro livros em uma média de 30 a 40 alunos por sala, é pouco.

R.P. Acha que é falta de anúncio?

Não, eu acho que é o preço. Livro no Brasil é caro e pra realidade de Cachoeira mais ainda, e os professores trabalham com capítulos e não com o livro todo, só quando o aluno tem interesse em se aprofundar em ler a obra completa. E tem até a Martim Claret que são livros baratos na faixa de R$ 10,50 e eu vendo o mesmo preço de Salvador. Tudo bem que livro é caro, mas falta interesse, é uma questão de cultura.

R.P. Qual a sua leitura principal?

Revistas e romances.

R.P. Tem um autor preferido?

Não. O que eu lia muito era administração, por que eu sou formado, e tenho MBA. Então eu lia muito de economia e administração. Mas não tenho preferência, eu gosto de ler tudo.

R.P. Se tivesse um jornal aqui em Cachoeira e você fosse o editor do jornal falaria sobre o que? Quais seriam os assuntos importantes e consequentemente lidos?

Pra interior eu acho interessante você falar da cidade, da administração dela.

R.P. A gente tem uma pesquisa que diz que as pessoas gostariam muito de ler sobre emprego, você concorda?

Não, não teria espaço, porque não tem disponibilidade de emprego. É uma cidade pequena que não tem indústria. Aqui tem muito aposentado.